SÓ QUERO SER TRATADO COM DIGNIDADE
Caríssimos este texto é um pouco extenso, mas por favor tenham paciência e acompanhem-me até ao fim…
“Desabafo de um Enfermeiro:
“(..)Como Enfermeiro, estive hoje de greve assegurando cuidados mínimos.
Revejo-me integralmente nas reivindicações da classe. Mas pergunto-me
como as outras pessoas vêm a nossa classe, a nossa profissão, a nossa
posição na sociedade. Será que não seremos o parente pobre de um
sistema de saúde que só tem olhos para outros interesses…
Sou licenciado. Ganho como bacharel ou nem isso. Deveria fazer 140h
por mês e trabalho 160 ou mais. Não recebo nada por essas horas a
mais, acumulando horas. Tenho colegas com quase 200h positivas, ou
seja, 200 horas que prestaram serviço de qualidade e que não viram
compensado o esforço, e porque não dizê-lo, dedicação à causa pública,
fazendo os possíveis todos os dias para não faltar nada em termos de
cuidados de enfermagem.
Essas 200 horas deveriam ser pagas como extraordinárias, ou melhor
ainda, deveriam ser realizadas por um dos 5mil enfermeiros que
actualmente não tem emprego. No meu serviço devem-se mais de 2000h. No
meu hospital há uns dezenas de serviços e a média é nalguns casos
superior.
Devem-se no país, talvez um milhão de horas de cuidados. O que daria
trabalho a mais 7000 Enfermeiros.
E já nem estou a falar no aumento do numero de enfermeiros por cada
turno, senão o número teria de ser ainda maior. No meu serviço, para
32 doentes, podem estar apenas 2 enfermeiros de serviço. E ao
contrário do que por vezes pensamos (os enfermeiros pensam) só temos 2
mãos, 2 olhos, 2 pernas e 1 cabeça. E não somos omnipresentes.
Sou contratado há mais de 4 anos, trabalhando um pouco à margem da
lei com contratos de 6 meses ‘miraculosamente’ renovados. Mas será que
algum dia deixarão de precisar realmente dos enfermeiros para termos
um contrato tipo ‘hipermercado’ ou pior?
Depois, nestes 4 anos vi o meu ordenado ser aumentado pouco mais de
40€, ou seja 10€ ano. Não subi nenhum escalão, grau, etc, porque
simplesmente não há carreira de enfermagem definida, e como contratado
a coisa complica-se. Qual é o meu estímulo todos os dias? Apesar de
ainda adorar o que faço, trabalho porque preciso dos €€€€. É
frustrante pensar que todos os anos ao contrário do que deveria ser,
ganharei menos. Deveria ganhar como licenciado e ganhar horas extras
se me fossem exigidas.
Eu que ganho 6,5€ à hora, bem menos que alguns funcionárias da limpeza
(sem desprimor para o seu trabalho), não me pagam horas extra. Mas
pagar 2500€ por 24h de um médico, já é moralmente e legalmente
aceite.Deixemos de ser hipócritas. Sou mal pago. Sinto todos os dias
na pele, o peso e o risco desta profissão, que não é dar injecções e
medir tensões. Está redondamente enganado quem dessa forma pensa.
Somos um elo central nas relações clínicas, um peça chave. Quem esteve
internado e já precisou de nós saberá a tudo o que me refiro.
Formação adicional é sempre condicionada pelos serviços e
instituições, num país que quer ter miúdos com computadores por todo o
lado, num país em que se não formos doutores não somos ninguém, mas
apelar a uma formação contínua, tendencialmente gratuita, é só para
outras classes. A qualidade afinal é para outros verem. O doente que
se trame.
Se tenho um curso de suporte básico de vida, devo-o a mim. 200€ e tem de
ser renovado em 2-3 anos.
Se tenho um curso de suporte avançado de vida, devo-o a mim. 400€ e
renovado em 2-3anos.
Se quero ser especialista, terei de ter pelo menos mais 6000€ de propinas
para pagar. E depois, esperar que me aceitem numa instituição, que abram
concursos, que se desbloqueiem verbas, etc. Um médico depois de médico
torna-se especialista praticamente sem ir à escola em 6 anos. A prática é
quase tudo. Nós seremos muito diferentes?
Se quero tirar uma pós-graduação ou mestrado, arrisco-me a queimar as
pestanas e tirar tempo à família, não esquecendo mais 3000€ ou 6000€ de
propinas. Em troca recebo mais 0€ ao fim do mês. É isto
um estímulo ao desenvolvimento? É assim que a profissão está. É assim que
nos sentimos.”
Este colega explica bem a descriminação e a dualidade de critérios que existe no governo da República Portuguesa… No entanto nada consegue explicar a Raiva que andamos a sentir ao longo destes últimos anos.
Mas pior que tudo, pior que esta “espécie de governo”, é a imcompreensão por parte da população. A maioria da população não sabe o que é ser Enfermeiro, não sabe o que fazemos, a responsabilidade que temos, e principalmente o que sofremos com o nosso trabalho, seja a nível mental, emocional e acima de tudo fisicamente.
Falam dos professores agredidos pelos alunos, mas não falam dos Enfermeiros agredidos pelos doentes ou pelos familiares. Falam da responsabilidade de um gestor, mas não falam das vidas que todos os dias estão à responsabilidade dos Enfermeiros (que muitas vezes têm de corrigir os erros dos outros), mesmo segundo alguns iluminados incultos incompetentes e analfabetos que dizem que não temos formação ou competência para… A esses eu digo P’O CARALHO… Eu estudei mais de 4 anos, especializei-me ou “pós graduei-me” (embora nao seja reconhecido), e estudo todos os dias só porque me apetece… Quantas vidas já não salvei só por ter corrigido a imcompetência de profissionais de outras classes (não só médicos)?! E isso obviamente fiz sem competência ou conhecimento…
Abram os olhos e tentem saber quem somos… Tratem-me com dignidade…
Sra Bastonária: não chega tomar posição mostre quem somos.
Meus caros: